Vila Nova de Gaia, Portugal – Numa iniciativa pioneira que visa salvaguardar o património cultural português, a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, em colaboração com a Biblioteca Nacional de Portugal e diversas universidades, está a liderar um ambicioso projeto de preservação de manuscritos antigos. O projeto, com um orçamento plurianual significativo, concentra-se na identificação, digitalização e conservação de documentos históricos valiosos, muitos dos quais se encontram em risco iminente de deterioração.
A iniciativa surge num momento crítico, com muitos dos manuscritos, alguns datados do século XII, a demonstrarem sinais avançados de degradação devido a fatores como a acidez do papel, a humidade, as variações de temperatura e a ação de agentes biológicos como fungos e insetos. A urgência da situação motivou a criação de uma equipa multidisciplinar composta por arquivistas, bibliotecários, historiadores, químicos, conservadores-restauradores e especialistas em tecnologia digital.
"Estamos a falar de um património inestimável que nos conta a história de Portugal, da nossa cultura e da nossa identidade", afirma Dra. Isabel Mendes, coordenadora do projeto e diretora do Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia. "Estes manuscritos são fontes primárias de informação que nos permitem compreender o passado e construir um futuro mais informado. Perdê-los seria uma tragédia irreparável."
O projeto está dividido em três fases principais: identificação e inventário, digitalização e conservação.
Identificação e Inventário:
A primeira fase envolve a identificação e o inventário exaustivo dos manuscritos existentes em arquivos municipais, bibliotecas locais, instituições religiosas e coleções privadas em toda a região. Esta etapa é crucial para determinar a extensão do problema e priorizar os documentos que necessitam de atenção urgente. A equipa utiliza técnicas de pesquisa avançadas, incluindo a análise paleográfica e a consulta de catálogos históricos, para identificar e classificar os manuscritos.
"Muitas vezes, estes documentos estão escondidos em caixas empoeiradas, em sótãos ou em caves, esquecidos e negligenciados", explica o Dr. António Silva, historiador e membro da equipa. "O nosso trabalho é trazê-los à luz, catalogá-los e avaliar o seu valor histórico e cultural."
Digitalização:
A segunda fase concentra-se na digitalização dos manuscritos. Este processo permite criar cópias digitais de alta resolução dos documentos, que podem ser consultadas por investigadores e pelo público em geral sem colocar em risco os originais. A digitalização também facilita a partilha de informação e a colaboração entre instituições em todo o mundo.
A equipa utiliza equipamentos de digitalização de última geração, que garantem a preservação da qualidade da imagem e a reprodução fiel dos detalhes dos manuscritos. As imagens digitais são armazenadas em servidores seguros e acessíveis através de uma plataforma online dedicada.
"A digitalização é uma ferramenta fundamental para a preservação e divulgação do nosso património", afirma a Dra. Maria João Pereira, especialista em tecnologia digital. "Permite-nos democratizar o acesso à informação e garantir que estes documentos estarão disponíveis para as futuras gerações."
Conservação:
A terceira e mais complexa fase é a conservação dos manuscritos originais. Esta etapa envolve a limpeza, a reparação e a estabilização dos documentos, utilizando técnicas e materiais especializados. A equipa de conservadores-restauradores trabalha em estreita colaboração com os cientistas para identificar os melhores métodos de tratamento para cada manuscrito, tendo em conta o seu estado de conservação e os materiais de que é feito.
"O nosso objetivo é prolongar a vida destes documentos o máximo possível", explica a Dra. Sofia Almeida, conservadora-restauradora e líder da equipa de conservação. "Utilizamos técnicas não invasivas e materiais reversíveis, que garantem que os tratamentos não danificam os manuscritos a longo prazo."
Os manuscritos são limpos com pincéis macios e aspiradores de baixa potência para remover a sujidade e o pó. As páginas danificadas são reparadas com papel japonês e adesivos neutros. Os encadernados soltos são reforçados com cola de amido. Os manuscritos são então acondicionados em caixas de conservação feitas de materiais neutros e armazenados em condições controladas de temperatura e humidade.
Desafios e Perspetivas Futuras:
O projeto enfrenta vários desafios, incluindo a escassez de recursos financeiros, a falta de especialistas em conservação e a dificuldade em aceder a alguns manuscritos que se encontram em coleções privadas. No entanto, a equipa está determinada a superar estes obstáculos e a garantir o sucesso do projeto.
"Estamos a trabalhar em estreita colaboração com o governo central e com outras instituições para obter o financiamento necessário", afirma a Dra. Isabel Mendes. "Também estamos a investir na formação de novos conservadores-restauradores e a sensibilizar o público para a importância da preservação do património cultural."
A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia planeia criar um centro de conservação e digitalização de manuscritos, que servirá como um polo de referência nacional para a preservação do património documental. O centro estará equipado com laboratórios de conservação, estúdios de digitalização e espaços de armazenamento com condições controladas de temperatura e humidade.
"Este centro será um legado para as futuras gerações", afirma o Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Dr. Eduardo Vítor Rodrigues. "Será um lugar onde os manuscritos serão preservados, estudados e divulgados, garantindo que a nossa história e a nossa cultura serão transmitidas às gerações vindouras."
O projeto de preservação de manuscritos antigos em Vila Nova de Gaia é um exemplo inspirador de como a colaboração entre instituições, o investimento em tecnologia e o compromisso com a preservação do património cultural podem fazer a diferença. Ao salvar estes documentos históricos da deterioração, Vila Nova de Gaia está a contribuir para a construção de um futuro mais informado e consciente do seu passado. A iniciativa serve como um modelo para outras cidades e regiões em Portugal e no mundo, demonstrando a importância de proteger e valorizar o nosso património cultural para as gerações futuras. A equipa espera que este projeto inspire outros a tomarem medidas para preservar o património documental das suas comunidades, garantindo que as histórias e conhecimentos contidos nestes documentos continuem a inspirar e a informar o mundo.

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